terça-feira, 25 de agosto de 2009

O evangelho de Marcos.

Textos de estudo: Mc 9,33-37 e Mc 10,13-16

Quem é o maior? 33Foram para Cafarnaum. Tendo entrado em casa, Jesus lhes perguntava: ¨Sobre que discutíeis no caminho?¨ 34Mas eles calavam, pois no caminho tinham discutido para saber quem era o maior. 35Jesus sentou-se e chamou os Doze; ele lhes disse: ¨Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos¨. 36E pegando uma criança, colocou-a no meio deles e, depois de a ter abraçado, disse-lhes: 37¨Quem acolhe em meu nome uma criança como esta, acolhe a mim mesmo; e quem me acolhe, não é a mim que acolhe, mas Àquele que me enviou¨.

Jesus e as crianças. 13Algumas pessoas traziam-lhe crianças para que tocasse nelas, mas os discípulos as escorraçavam. 14Ao ver isto, Jesus indignou-se e lhes disse: ¨Deixar vir a mim as crianças, não as impeçais, pois o Reino de Deus é para os que são como elas. 15Em verdade, eu vos digo, quem não receber o Reino de Deus como uma criança não entrará nele¨. 16E ele as abraçava e abençoava, impondo-lhes as mãos.

(Roteiro da Escola da Palavra. Milão)
Ambientação
- Entronização da Bíblia.
- Oração ou canto inicial.
- Silêncio de recolhimento e preparação.
- Apresentação do esquema que será seguido na reunião.

Primeiro passo: leitura atenciosa do texto.
- Proclamação da Palavra de Deus: Mc 9,33-37. e Mc 10,13-16
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- Explicação da passagem.
Neste primeiro momento, a atenção se concentra no texto para descobrir a mensagem que o autor quis transmitir aos seus destinatários. Esta explicação pode ser preparada pelo dirigente ou um dos membros do círculo bíblico.
O que o texto está dizendo? Quais são os elementos relevantes? Qual é o âmago da passagem?
(Sugestão de explicação para o dirigente).
No primeiro texto fala-se de uma criança e no segundo texto de várias crianças. Trata-se de duas circunstâncias diferentes. No primeiro texto, Jesus pede aos discípulos de acolher as pessoas mais fracas (as crianças) em vez de procurar a companhia dos poderosos e suas vantagens. No segundo texto, Jesus apresenta a atitude das crianças como a atitude modelo para acolher e vivenciar a fé.
É provável que Marcos encontrava alguns problemas de comportamento entre os membros da comunidade. Havia ambição entre eles mesmos. Eles disputavam os primeiros lugares. Jesus encontrou o mesmo entre seus discípulos. Eles também eram ambiciosos. Em vez de procurar a amizade dos poderosos e os primeiros lugares, Jesus pede aos discípulos que eles procuram ajudar os mais fracos, por exemplo, uma criança. Quem acolhe uma criança, acolhe Jesus e seu Pai.
Na segunda passagem, Jesus mostra qual deve ser a atitude fundamental de um discípulo: ser como uma criança para acolher o Reino de Deus. Quais são as virtudes das crianças? Simplicidade, sinceridade, humildade, confiança nos outros ect. Estes dois textos foram básicos para a espiritualidade de Santa Tereza de Lisieux.



Segundo passo: deixamo-nos interpelar pelo texto.
- Descobrir a mensagem que este texto tem, hoje, para nós.
O que o texto está sugerindo para minha situação concreta, aqui e agora?
Tenho eu encontros com Jesus? Onde?
Quais são as minhas dúvidas quanto a ele?
Qual é a minha atitude para com Jesus?
De que me serve a fé recebida no batismo?

Terceiro passo: a Palavra exige de nós uma resposta:oração-ação
- Em silêncio exterior total, dialoga-se com Deus respondendo à sua Palavra. Tempo sugerido pelo menos 15 minutos. Chega o momento do silêncio no qual cada um tem de se deixar guiar pela força do Espírito Santo e travar um diálogo sincero e pessoal com ele.

Oração conclusiva

- Conclui-se com uma oração ou canto em uníssono.

Experiência espiritual na Bíblia.
O evangelho de Marcos. Marcos escreve seu evangelho – por volta dos anos 70 – para uma comunidade de origem gentílica e que vive num mundo gentílico. É um evangelho de iniciação, o que explica sua concisão. Ele se concentra em algumas perguntas fundamentais: Quem é Jesus? Onde e como está presente seu reino e quais são as leis que orientam o seu desenvolvimento? Quem é o discípulo?
Para responder a tais perguntas, Mc leva progressivamente o leitor à compreensão do sentido da cruz; toda exposição gira em torno deste centro. Não se exclui a hipótese de que o evangelista sustentasse uma polêmica contra certa tendência a insistir demasiadamente nos aspectos gloriosos (por exemplo, os milagres) de Cristo. Ele percebe o perigo disso: uma cristologia da glória em detrimento da cruz reproduziria na comunidade cristã o erro judaico, a saber: a busca de Deus que rejeita sua presença no crucificado. Para Mc é a cruz o que separa a verdadeira da falsa busca de Deus.(Mc 8,27ss). O verdadeiro discípulo é o centurião, que aos pés da cruz reconhece o Filho de Deus na morte (Mc 15,39); não somente nos milagres, mas igualmente ¨naquela¨ morte, ao descobrir na obstinação do amor e na solidariedade mais radical a presença salvífica de Deus. Com isto Mc mostra que entende a paixão não simplesmente como gesto realizado por Cristo para nossa salvação, mas como gesto que revela os traços mais característicos da epifania divina.
A exposição de Mc passa continuamente da cruz para o discípulo, convidando-o a crer no caminho da cruz e a percorrê-lo. Já não se pode seguir outros caminhos, quando se quer ter autêntica experiência de Deus. Concretamente, percorrer o caminho da cruz significa negar-se a si mesmo (ou seja, projetar a existência não mais em termos de conservação, mas de dom: Mc 8,35), viver a solidariedade mais radical no matrimônio (Mc 10, 1ss), acolher os pequeninos (Mc 9,37), vender os bens e distribuí-los aos pobres (Mc10,21), servir (Mc 10,45).
Naturalmente, o caminho da cruz está indissoluvelmente unido à ressurreição. Se o dom de si permanecesse inútil e derrotado, não haveria ¨Boa nova¨, ¨alegre notícia¨; não obstante, ele é Boa nova porque ao dom de si foi prometida a vitória de Deus. Seguir Cristo não é perder-se (esta é a raiz de todos os medos do discípulo), mas reencontrar-se. Ao discípulo foi prometido o cêntuplo ¨já neste mundo¨ (Mc10,28-31).

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

“Responsabilidade da Igreja e dos Cristãos”

Como já se tornou lugar-comum, nesta era de profundo questionamento sobre a racionalidade construída pela modernidade não há e nem haverá espaço para todo e qualquer pensamento ou instituição que não consiga ultrapassar esse momento de ultrapassamento histórico. Não há mais ninguém que não veja, no hoje, uma crise no paradigma civilizacional construído pela burguesia em sua luta contra a aristocracia feudal.
Trata-se de um ultrapassamento, não a eliminação. Trata-se da necessária construção do novo sem que todo o velo seja disponibilizado pra o lixo da história. Não! O ultrapassamento dialético das instituições não as elimina, mas exige delas um repensar, um reconstruir-se em bases novas. Aquelas que não conseguirem esse feito, ou que se considerem inamovíveis, com certeza ficarão como nomes de uma história passada.
Assim, o Cristianismo, assim a Igreja.
Eliminando, momentaneamente, a nossa visão de fé, temos que dizer que ambos são construções históricas, ou seja, estruturas teóricas e práticas moldadas pelas pessoas em determinado momento histórico, para fazer frente àquele mesmo momento.
O Cristianismo é uma estrutura de pensamento, um conjunto de normas e vivências que estruturam no hoje, seja em 2009 seja em 313 DC, o agir de seus fiéis a partir da prática de uma Pessoa: Jesus de Nazaré. Mas ele não é uma estrutura monolítica, quer seja visto no decorrer da sua história de 2 milênios, quer seja no hoje, onde tantas vozes o constroem de formas por vezes muito diferentes e até conflitantes.
A Igreja Católica também é uma construção histórica, não no sentido de afirmar que a sua constituição se deve apenas ao pensamento dos homens e mulheres que por ela passaram. Não! A nossa fé nos diz muito mais. Mas nunca poderemos fugir do fato, inquestionável, de que, sempre, a cultura e o Homem são elementos estruturantes das instituições. Se a nossa fé nos diz que a essência do Cristianismo é a prática de Jesus de Nazaré e que a Igreja surge da ação do Espírito sobre os apóstolos, não poderá isto servir de reflexão para aqueles e aquelas que não possuem esta mesma fé, e que são mais de 75% da humanidade.
Neste momento histórico de Crise do Paradigma Civilizatório, nada mais está escondido ou deixou de ser conhecido. As propostas de pensamentos, novos e velhos, os questionamentos, novos e velhos, sobre todas as instituições, novas e velhas, aí estão. E o Cristianismo e a Igreja devem entrar no diálogo que levará à construção do novo paradigma. E nesse debate não poderemos levar conteúdos teóricos que partam dos dogmas de nossa fé, já que são desconhecidos ou não reconhecidos pelo Outro. E se quisermos que os nossos valores permaneçam e sejam elementos constituintes do novo paradigma civilizacional, teremos que mostrar a sua validade e nem sequer pensar em forçar ou partir de algum tipo de autoridade para fazê-lo.
O Cristianismo tem uma base hoje reconhecida por todos e todas como de inegável valor para a estrutura civilizacional: a Palavra e a Prática de Jesus. A imensa maioria não o entende como a Palavra Encarnada, como nossa fé nos diz, mas o aceitam com portador de um ensinamento ímpar para o homem, de ontem e de hoje. A Igreja tem uma história nem sempre como um sinal dessa mesma Palavra, principalmente quando ousou ser poder em lugar de ser serviço. Mas ainda hoje tem uma imensa credibilidade e sua palavra, quando embasada na Palavra Encarnada e não em princípios de autoridade construídos historicamente.
O Novo virá, com ou sem os valores do Cristianismo, com ou sem a presença testemunhal da Igreja. Mas, e nossa fé nos diz isso, não será um Novo vivenciável. Ao contrário, cremos nós, os valores da Palavra Encarnada deverão se constituir em embasamento do Novo, para que ele seja, de fato, civilizacional e não barbárie. Mas somos nós, cristãos e Igreja, que temos que ser os canais dessa implantação. Caso contrário, lá estaremos nós, cristãos e Igreja, nos guetos da história.
Carlos Signorelli
Presidente do Conselho Nacional do Laicato do Brasil