terça-feira, 28 de julho de 2009

Encontros e iniciativas – transformações para a vida toda (meditação a partir de Mc 5,25-34)

Paulo Ueti*
Era uma vez uma mulher com seus trinta anos de idade. Estava muito doente havia 12 anos. Tinha procurado todos os médicos da região. Gastou tudo o que tinha. Era muito pobre e sozinha. Por causa da religião ela também foi abandonada por sua gente. No tempo dela gente com doente era considerada impura e não podia sequer ser tocada. Como ela, havia muita gente nesta situação. Parece que ninguém mais queria sequer passar perto dela. Certamente, era moradora dos arredores da cidade.
Que interpretação “maligna” da religião é essa que “desliga” pessoas das suas relações? Essa mulher, nos momentos de maior solidão e desencontro, devia perguntar isso também. Ela devia pensar consigo mesma porque as pessoas que acreditavam em Deus e se diziam praticantes de uma religião faziam isso com ela e com tantas outras pessoas. Algo revoltante. Que Deus é esse? Que “maldição” é essa, que em nome de Deus era imputada a ela?
A religião (qualquer uma) deve ser sempre um espaço e uma experiência de unidade e de cura. Por isso ela “religa” pessoas e situações onde está tudo quebrado. Na nossa tradição cristã esse é o único jeito de “verdadeiramente encontrar Deus”, ou seja, temos que encontrar os/as irmãos/ãs. Segundo a 1ª Carta de João (1Jo 4,20): “Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?”. O encontro pessoal com Jesus está no encontro pessoal com as pessoas e as realidades em que vivemos. É o amor do samaritano (Lc 10) que nos provoca na direção das pessoas em estado de vulnerabilidade (mais necessitadas) para sermos uma presença viva do Cristo Ressuscitado para elas. Elas são o nosso “próximo” onde encontramos e experimentamos com alegria e júbilo a graça de Deus.
Aquela mulher de quem comecei a falar devia estar muito entristecida. Mas estava cheia de esperança e de energia. Podia ser marginalizada por muitos/as, mas não tinha perdido a vontade de continuar vivendo e conquistar uma situação melhor. A situação de doença em que ela vivia não a impediu de continuar a luta pela sua saúde e pela vida plena que lhe fora negada, tanto pela doença quanto pela sociedade em que ela vivia. Mas, ainda sim, restava uma chama de força e esperança acesa.
Nos últimos tempos, tinha ouvido falar de alguém que andava por aí fazendo memória dos tempos em que Deus lembrava, através dos seus profetas, que “aquele que quer gloriar-se glorie-se disto: que ele tenha inteligência e me conheça, porque eu sou Javé que pratico o amor, o direito e a justiça na terra. Porque é disto que eu gosto!” (Jr 9,23).
Acho que o povo daquela comunidade da mulher doente esqueceu-se disso. E também acho que muitos/as de nós esquecemos esse Deus, dessa esperança dos pobres que Ele é. Por isso ela estava tão animada com esse Jesus que estava andando pelas cidades e lembrando essas coisas boas da religião. Por isso também que ainda hoje, os pobres são resistência na crença e esperança num Deus que quer um mundo melhor. Religião é pra isso: justiça, amor, conexão, fraternuras.
Por causa dessa crença dela e desta memória que ela tanto ansiava por escutar de novo, a mulher, crente e atormentada, tomou mais coragem ainda de ir atrás mais uma vez de seu restabelecimento. Mais do que enfraquecida por sua doença, ela tinha um fluxo de sangue continuo havia 12 anos, ela estava desesperançada pelo desprezo das pessoas que eram da comunidade dela. Ela queria viver de novo. Ela não sabia bem, mas queria uma nova vida. Ela foi atrás disso, não com muitas certezas, mas com a esperança, que mesmo no meio da dúvida, sobrevive e é mais forte.
Lembro sempre do Prólogo da Regra de São Bento nestas horas: "Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes? Se, ouvindo, responderes: Eu, dir-te-á Deus: Se queres possuir a verdadeira e perpétua vida, guarda a tua língua de dizer o mal e que teus lábios não profiram a falsidade, afasta-te do mal e faze o bem, procura a paz e segue-a". Aquela mulher já começou a ficar curada na hora em que ela decidiu novamente ir atrás de seu restabelecimento. Ao mesmo tempo, em seu corpo e em sua vontade, a cura estava acontecendo: quando ela decidiu e criou coragem de aparecer publicamente e enfrentar a multidão que a excluía e a impedia de participar da vida da comunidade.
Fico pensando sempre nas milhares de mulheres (alguns homens também) que doam sua vida cotidianamente em prol das pessoas em situação de vulnerabilidade. Nessas mulheres que tomam consciência e experimentam o ardor (que incomoda e não deixa a gente quieta) do Espírito Santo e saem de casa em busca da saúde. Um ardor que traz aquela certeza mais profunda, recheada de dúvidas, mas ainda uma chama viva de crença nos tempos melhores. E o mais impressionante do que a cura e o desenvolvimento das pessoas (a renutrição, a diminuição do índice de morbi-morbidade) é a experiência de reciprocidade, uma verdadeira experiência do “toque de/em Deus”.
Aquela mulher resolveu enfrentar a multidão e tocar em Jesus, porque sentia que aquele alguém iria dar atenção a ela e a escutar. Alguém como Jesus, que falava tanto do amor e da justiça, seria solidário com ela naquele momento. Alguém como Jesus haveria de devolver, inclusive para os apóstolos dele, o sentido da vida e da missão de Deus: que todos/as tenham vida em abundância. A religião deve humanizar as pessoas e não desumanizá-las, como o que aconteceu com aquela mulher: jogada fora da comunidade, tratada como um perigo em nome de Deus. Deus não quer isso. São os nossos limites relacionais ou nossos egoísmos “naturais”.
A comunidade é o lugar da cura e do perdão. Fora de uma comunidade de amor e de solidariedade não existe possibilidade de encontro verdadeiro com Deus e com seu projeto.
Aquela mulher resolveu ir ao encontro de Jesus. Foi. Deve ter esbarrado em muita gente até poder chegar perto daquele homem que despertava memórias tão antigas e esquecidas pelo povo da religião. Às vezes as pessoas mais apegadas à religião acabam esquecendo-se da memória do Deus revelou aos pobres e pequeninos coisas importantes e transformadoras (Mt 11,25).
Onde encontrar Jesus? Como se achegar? Como ter uma relação pessoal e íntima com ele? Não é difícil quando sabemos onde procurar. Nossa catequese já nos ensina há muitos séculos que Deus está em todos os lugares. Nossa poesia através da música nos recorda a mesma coisa. Nossos bispos ainda nos alertam para a presença de Deus nos/as mais necessitados/as. Nossa tradição bíblica é enfática nestes termos.
Jesus estava no MEIO da multidão, cercada por ela. A mulher foi ao encontro. Conseguiu tocar nas roupas de Jesus. Sentiu a cura imediatamente. Jesus também sentiu algo diferente, nele alguma coisa mudou também. Parou. Virou-se. Perguntou. Buscou saber e entender o que ele havia sentido. Encontrou uma mulher tremula, com medo, apavorada pelo gesto que havia terminado de fazer. Ela poderia ser apedrejada ali. Como uma mulher impura, doente e afastada há anos da comunidade ousava intrometer-se na multidão.
Jesus a reconheceu. Reconheceu nela a humanidade que uma determinada interpretação da religião havia tirado. Reconheceu nela um símbolo de discipulado. Alguém que deve ser imitada – por isso sua memória manteve-se nos evangelhos. Os discípulos de Jesus queriam seguir em frente, não estavam atentos para as necessidades das pessoas que os cercavam, parece que queriam Jesus só pra eles. Parece que nem prestaram atenção no fato. Jesus parou e buscou aquela mulher. Olhou pra ela como fazia tempo que ninguém olhava. Conversou com ela como há tempos ninguém conversava. Essa mulher sentiu a vida voltando. Ela era gente novamente. Ela tinha um nome. Ela podia ser contada entre as filhas de Deus amadas e acolhidas.
Um dos aspectos mais fundamentais da conquista da saúde e da luta contra as doenças é integrar as pessoas com elas mesmas e com alguma comunidade, algum grupo social. Essa mulher de que falamos, símbolo de tantas crianças e mulheres (homens também, é claro) pelo mundo afora, precisava de algum grupo para retomar sua vida e reviver de forma nova a fim de fazer um processo de ressuscitar para uma vida nova. Essa experiência batismal precisa ser revivida cotidianamente.
Durante a Vigília Pascal lemos um texto que precisa estar presente nas nossas vidas e no nosso trabalho pastoral: “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição; assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor. (Rm 6,4-5.11).”
O que resultou desse “encontro pessoal” com Jesus? Mudança de vida. Retorno para a comunidade. Quem é responsável por mudar a vida de alguém? Ninguém, parece. Todos e todas são responsáveis uns/umas pelos/as outros/as. Na comunidade é que se faz caminhos de voltas, re retornos, de conversão (conversação).
O encontro termina com uma declaração de Jesus muito pertinente para nossas vidas: Vai e seja uma pessoa inteira / integrada. Na nossa sociedade segregacionista, que exclui e marginaliza as pessoas (inclusive muitas religiões fazem isso), essa mulher e Jesus fazem um caminho contrario: apostam nos encontros, tem fé de que isso faz vida nova aparecer, saúde brotar e novas relações estabelecerem-se.
E nós? Estamos sendo agentes de uma religião que liga as pessoas umas às outras, portanto ligam as pessoas com Deus? Com quem nós nos identificamos na história que lemos no evangelho (Mc 5,25-34)? Que Jesus nós andamos anunciando: aquele que segue seu caminho e não olha para as pessoas que o tocam ou aquele que, mesmo contra a vontade dos seus “discípulos” para e quer saber quem está perto e o que está precisando?

Do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI). Email: pauloueti@uol.com.br.


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